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Quem Manda no Quê Brasil

Trilha Cidadã · Módulo 07 de 11 · 14 min

Impostos

Você paga imposto até quando compra um pão. Ele está escondido no preço, na conta de luz, no combustível e no celular. Por isso, todo brasileiro é contribuinte, mesmo quem nunca declarou Imposto de Renda.

Neste módulo você vai entender quem cobra cada imposto, como o dinheiro passa de um governo para o outro, onde ele é obrigado a ser aplicado e o que muda com a Reforma Tributária, que já começou.

cerca de 14 minutos.

Imposto, taxa e contribuição

No dia a dia chamamos tudo de "imposto", mas existem tipos diferentes, e a diferença importa para entender para onde o dinheiro vai.

Tipo O que é Para onde vai Exemplos
Imposto Cobrado sem um serviço específico em troca Caixa geral do governo, que decide o destino no orçamento (respeitando os mínimos da lei) Imposto de Renda, ICMS, IPTU, IPVA
Taxa Pagamento por um serviço específico ou por uma fiscalização Para aquele serviço Taxa de lixo, taxa de emissão de passaporte
Contribuição Cobrada para uma finalidade definida em lei Para aquela finalidade INSS (Previdência), PIS e Cofins (seguridade social)

Por isso o IPVA não é "para as ruas". Como é imposto, ele vai para o caixa geral do estado e da cidade, e não tem destino amarrado ao nome.

Quem cobra o quê

Nível Principais tributos Sobre o quê
Município IPTU Imóveis na cidade
ISS Serviços (salão, oficina, escola particular, aplicativos)
ITBI Compra e venda de imóveis
Estado ICMS Circulação de mercadorias, energia, combustível, telefone e transporte. É um dos tributos que mais arrecadam no país
IPVA Veículos
ITCMD Heranças e doações
União Imposto de Renda (IR) Salários, lucros, ganhos
IPI Produtos industrializados
IOF Operações financeiras, como crédito, câmbio e seguros
Contribuições (INSS, PIS, Cofins, CSLL) Folha de pagamento, faturamento e lucro das empresas

Quanto o Brasil arrecada

Em 2025, a carga tributária (tudo o que os três níveis de governo arrecadaram) chegou a 32,4% do PIB, o maior valor da série iniciada em 2010. Em termos simples: de cada R$ 100 que a economia produziu, cerca de R$ 32 viraram tributo. A maior parte fica com a União (21,6% do ); os estados ficam com 8,4% e as cidades com 2,4%. Mas boa parte do que a União arrecada é repassada a estados e cidades, como mostra a seção "Como o dinheiro circula". (Tesouro Nacional, Boletim de Estimativa da Carga Tributária Bruta 2025)

A maior parte vem do consumo. Tributos sobre bens e serviços, como ICMS, ISS e PIS/Cofins, são a principal fonte. Eles estão no preço e são pagos igualmente por ricos e pobres. Por isso, proporcionalmente à renda, pesam mais para quem ganha menos. Desde 2013, a nota fiscal precisa mostrar quanto de tributo está embutido no preço (Lei 12.741/2012).

Imposto de Renda em 2026. Desde janeiro de 2026, quem ganha até R$ 5 mil por mês não paga Imposto de Renda, e há um desconto parcial para quem ganha até R$ 7.350 (Lei 15.270/2025). Para compensar, a lei criou uma cobrança mínima sobre cerca de 141 mil pessoas a conferir com renda acima de R$ 600 mil por ano. (Lei 15.270/2025, Planalto)

Nesta seção você pode escolher seu estado ou sua cidade e ver quanto cada tributo arrecada por habitante. Exemplo: cidade de São Paulo. Em 2025, o ISS arrecadou R$ 37,5 bilhões, mais que o dobro do IPTU (R$ 16,1 bilhões). (Prefeitura de São Paulo, Relatório de Gestão Fiscal do 3º quadrimestre de 2025)

Como o dinheiro circula

Quem arrecada nem sempre é quem gasta. A União fica com a maior parte dos impostos, mas a Constituição obriga a repassar uma fatia a estados e cidades, que têm mais serviços para prestar.

Quem arrecada nem sempre é quem gasta: 47% do IR e do IPI descem para estados e cidades

União arrecadaImposto de Renda e IPI
Estados arrecadamICMS e IPVAe recebem o FPE
Municípios arrecadamIPTU, ISS e ITBIe recebem FPM, ICMS, IPVA e Fundeb

O Fundeb (educação básica) junta parte dos impostos estaduais e municipais e é complementado pela União. Toque no diagrama para pausar o movimento.

Constituição Federal, artigos 158 e 159 · percentuais conferidos em 13/10/2026
  • FPE e FPM (Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios): parte do Imposto de Renda e do IPI (21,5% para os estados e 25,5% para as cidades), dividida principalmente pela população e pela renda de cada lugar. Quem tem menos renda recebe proporcionalmente mais.
  • Cota-parte do ICMS e do IPVA: o estado repassa 25% do ICMS às cidades e metade do IPVA dos veículos registrados em cada uma.
  • Fundeb: fundo da educação básica em cada estado, formado por parte dos impostos estaduais e municipais e complementado pela União.

Essa redistribuição é uma regra da Constituição, criada para reduzir as diferenças entre regiões. No mapa desta seção, você vê quanto cada estado e cada cidade arrecada por conta própria e quanto recebe de repasses, sempre por habitante.

Onde o dinheiro deve ser aplicado

Imposto não tem destino amarrado ao nome, mas a Constituição obriga cada governo a aplicar percentuais mínimos em saúde e educação. Essa é a sua régua para cobrar.

Nível Educação (mínimo) Saúde (mínimo)
União 18% da receita de impostos 15% da
Estados 25% da receita de impostos e transferências 12% da receita de impostos e transferências
Municípios 25% da receita de impostos e transferências 15% da receita de impostos e transferências

Se um governo não cumpre o mínimo, o Tribunal de Contas pode reprovar as contas. O estado ou a cidade também pode deixar de receber transferências voluntárias, que são os repasses extras feitos por acordo, sem obrigação. As leis orgânicas das cidades e as constituições estaduais podem exigir mais. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a Lei Orgânica exige no mínimo 31% da receita de impostos em educação, acima dos 25% da Constituição. (Câmara Municipal de São Paulo)

Para a sua região: o medidor desta seção mostra o mínimo exigido e quanto foi realmente aplicado no último ano, com dados oficiais do Siconfi (sistema de contas públicas do Tesouro) e dos sistemas de saúde e educação (Siops e Siope).

Reforma Tributária: o que muda e quando

A reforma aprovada em 2023 (Emenda Constitucional 132) troca cinco tributos sobre consumo por três novos. A troca é lenta e vai até 2033. As regras detalhadas estão na Lei Complementar 214/2025.

Sai Entra Quem cobra
PIS, Cofins e IPI (federais) CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) União
ICMS (estadual) e ISS (municipal) IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) Estados e municípios, juntos
(novo) Imposto Seletivo União, sobre produtos que fazem mal à saúde ou ao meio ambiente, como cigarro e bebida alcoólica

Cronograma

  • 2026 (agora): ano de teste. CBS (0,9%) e IBS (0,1%) aparecem nas notas fiscais, mas quem entrega corretamente as informações exigidas pelo fisco não precisa pagar esses valores.
  • 2027: a CBS entra para valer, PIS e Cofins acabam, o IPI é zerado para a maioria dos produtos (exceto para proteger a Zona Franca de Manaus) e começa o .
  • 2029 a 2032: ICMS e ISS diminuem aos poucos (90%, 80%, 70% e 60% do que eram), enquanto o IBS sobe na mesma proporção.
  • 2033: ICMS e ISS deixam de existir, e o novo sistema fica completo.

O que muda para você. O imposto passa a ser cobrado no lugar onde o produto é consumido, e não onde é produzido, o que acaba com a "guerra fiscal" entre estados. Haverá devolução de parte do imposto para famílias de baixa renda (o ) e imposto zero para os itens da cesta básica nacional. As alíquotas finais (o percentual que será cobrado) ainda serão definidas pelo Senado, com base na arrecadação observada nos anos de teste.

Atenção ao comparar anos: de 2027 em diante, o mapa de arrecadação passa a mostrar tributos que não existiam nos anos anteriores. Quando uma comparação entre anos atravessar essa mudança, o gráfico traz um aviso.

Custo Brasil no seu bolso

Quanto de imposto há em cada produto

Quase tudo o que você compra tem tributo embutido no preço. A diferença entre produtos é enorme: produtos essenciais pagam menos, e produtos considerados supérfluos, ou que a lei quer desestimular, pagam mais.

De cada R$ 100 em cigarro, R$ 83 são tributos; no arroz, R$ 18

Ver como tabela
ItemValor
Cigarro83,43%
Perfume nacional66,18%
Smartphone importado62,46%
Gasolina51,63%
Televisor41,99%
Cerveja (lata)39,07%
Medicamentos de uso humano36,26%
Tênis Nacional36,02%
Gás de cozinha35,54%
Conta de luz35,06%
Veículo Celta 1.0 popular médio34,96%
Roupas34,67%
Carne bovina30,02%
Água mineral22,04%
Pão Francês20,87%
Feijão20,15%
Leite de vaca (pacote)19,67%
Arroz17,51%

Estimativas que somam todos os tributos da cadeia, da fábrica ao caixa. O valor real muda conforme o estado, o tipo de empresa e a época.

IBPT, via Impostômetro (instituto privado; percentuais estimados de tributos no preço) · baixado em 13/10/2026 · sem data de atualização informada pela página

Como ler. Os percentuais são estimativas do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação), um instituto privado, publicadas no Impostômetro. Eles somam todos os tributos da cadeia, da fábrica ao caixa. O valor real muda conforme o estado (o ICMS é diferente em cada um), o tipo de empresa (no Simples Nacional, por exemplo, a conta é outra) e a época. O ICMS dos combustíveis, por exemplo, virou um valor fixo por litro em 2023, e o número da gasolina pode estar desatualizado. Ao escolher seu estado, cada barra mostra o valor recalculado para ele.

Quem fica com o imposto: exemplos

Produto Tributos principais União Estado Prefeitura
Carro IPI, PIS/Cofins, ICMS IPI e PIS/Cofins (parte do IPI vai a estados e cidades pelo FPE e FPM) ICMS Recebe 25% do ICMS
Comida (cesta básica) ICMS, PIS/Cofins (zerado para muitos itens) PIS/Cofins, quando há ICMS, geralmente reduzido Recebe 25% do ICMS
Remédios ICMS, PIS/Cofins PIS/Cofins ICMS Recebe 25% do ICMS
Gasolina ICMS (valor fixo por litro), PIS/Cofins, Cide PIS/Cofins e Cide ICMS Recebe 25% do ICMS
Conta de luz ICMS, PIS/Cofins, contribuição de iluminação pública PIS/Cofins ICMS Contribuição de iluminação e 25% do ICMS
Consulta ou serviço de saúde particular ISS, PIS/Cofins, impostos sobre o lucro PIS/Cofins e impostos sobre o lucro — ISS

O IBPT não publica quanto do imposto de cada produto vai para cada nível de governo. Aqui, essa divisão é calculada com as alíquotas oficiais de cada estado e mostrada em um gráfico por produto, com duas visões: quem cobra e para onde vai depois dos repasses. Com a Reforma Tributária, esses números mudam entre 2027 e 2033, e a cesta básica nacional passa a ter imposto zero.

Quanto custa um trabalhador com carteira assinada

É comum ouvir que "um funcionário custa o dobro do salário". A conta abaixo mostra para onde vai cada real que a empresa gasta e separa duas coisas que costumam ser misturadas: o que vai para o governo e o que é do próprio trabalhador, mesmo sem cair na conta todo mês.

Um salário de R$ 3.000 custa R$ 4.866,17 à empresa: 62,2% a mais, e a maior parte é do próprio trabalhador

Do trabalhador: R$ 3.621,40Salário líquido R$ 2.751,40 · 13º salário (1/12 por mês) R$ 250,00 · Férias com 1/3 (por mês) R$ 333,33 · FGTS (8%) R$ 286,67
Para o governo: R$ 1.244,77INSS do trabalhador R$ 248,60 · INSS do empregador (20%) R$ 716,67 · RAT (2%) R$ 71,67 · Terceiros (5,8%) R$ 207,83
Ver como tabela
ParteDe quemR$ por mês
Salário líquidotrabalhador2.751,40
INSS do trabalhadorgoverno248,60
Imposto de Rendagoverno0,00
13º salário (1/12 por mês)trabalhador250,00
Férias com 1/3 (por mês)trabalhador333,33
FGTS (8%)trabalhador286,67
INSS do empregador (20%)governo716,67
RAT (2%)governo71,67
Terceiros (5,8%)governo207,83
Custo total4.866,17

No Simples Nacional a conta muda: a maioria das pequenas empresas não paga os 20% de INSS sobre a folha nem terceiros separadamente.

Cálculo próprio com as alíquotas legais (Lei 8.212/1991, art. 22; Lei 8.036/1990; Portaria MPS/MF 13/2026; Lei 15.270/2025) · dados de 2026

Repare: nesse exemplo, o custo total é cerca de 62% maior que o salário, mas boa parte disso (FGTS, 13º e férias) é dinheiro do trabalhador. Com salário de R$ 3.000, não há Imposto de Renda, porque desde 2026 quem ganha até R$ 5 mil por mês está isento.

No Simples Nacional a conta muda muito. A maioria das pequenas empresas do Simples não paga os 20% de INSS sobre a folha nem as outras contribuições separadamente, porque elas já estão incluídas na guia única do Simples. No simulador desta seção, você digita o salário e escolhe o tipo de empresa para ver a conta.

Imóveis, veículos e herança

Estes são os tributos que aparecem nos momentos grandes da vida: comprar a casa, vender o carro, receber uma herança. Os valores abaixo são os de São Paulo; ao escolher outro estado ou outra cidade, eles mudam.

Situação Tributo Quem cobra Quanto (SP, 2026)
Comprar um imóvel ITBI, mais escritura e registro em cartório Prefeitura (ITBI); parte das custas de cartório vai ao estado ITBI de 3% do valor do imóvel na capital (a parte financiada pela casa própria paga 0,5%, até um limite)
Vender um imóvel com lucro Imposto de Renda sobre ganho de capital União De 15% a 22,5% sobre o lucro. Há isenções, como para quem vende o único imóvel de até R$ 440 mil ou usa o dinheiro para comprar outro imóvel residencial em até 180 dias
Herdar ou receber doação ITCMD Estado 4% do valor dos bens (alíquota fixa; projetos para torná-la progressiva estão em discussão)
Ter um carro IPVA, todo ano Estado (metade vai para a cidade onde o carro está registrado) 4% do valor do carro de passeio (3% se for elétrico ou movido só a álcool ou gás)
Comprar ou vender carro usado Taxas do Detran para transferência Estado Taxa fixa. Entre pessoas físicas, não há ICMS
Ter um imóvel IPTU, todo ano Prefeitura Varia conforme o valor venal do imóvel
Pegar empréstimo ou parcelar no cartão IOF União Percentual sobre o valor e por dia de dívida
Receber aluguel Imposto de Renda União Pela tabela progressiva do IR, somado aos outros rendimentos

Por que o ITCMD está mudando: a Reforma Tributária passou a exigir que o imposto sobre herança seja progressivo, ou seja, maior para heranças maiores (Emenda Constitucional 132/2023 e Lei Complementar 227/2026). A maioria dos estados já se adaptou a conferir. São Paulo, até outubro de 2026, ainda cobrava 4% fixos (Lei estadual 10.705/2000), e a Assembleia Legislativa discutia projetos para mudar isso a conferir; se a mudança for aprovada, só vale a partir do ano seguinte. (EC 132/2023, Planalto; LC 227/2026, Planalto; Lei 10.705/2000, Alesp)

Para juntar tudo: a ferramenta "Quanto de imposto eu pago no mês?" reúne essas contas. Você informa o salário, se tem carro e imóvel e o que costuma comprar, e vê a estimativa dividida entre União, estado e prefeitura.

Mitos rápidos

"O IPVA é para consertar as ruas."

Não. Imposto não tem destino amarrado; vai para o caixa geral.

"Quem não declara Imposto de Renda não paga imposto."

Paga, e muito: os tributos sobre consumo estão no preço de quase tudo.

"A cidade vive do IPTU."

Em muitas cidades, os repasses da União e do estado valem mais que todos os impostos municipais juntos.

"A Reforma Tributária já mudou tudo."

A mudança é gradual e só termina em 2033.

Teste o que aprendeu

5 perguntas rápidas sobre este módulo. Se errar, o quiz mostra onde a resposta está. O resultado fica salvo no seu navegador.

Glossário

Carga tributária
Tudo o que os governos arrecadam, comparado ao tamanho da economia (PIB).
PIB
Valor de tudo o que o país produz em um ano.
Transferência constitucional
Repasse obrigatório de um nível de governo para outro.
FPM / FPE
Fundos que repassam parte do IR e do IPI a municípios e estados.
Fundeb
Fundo que financia a educação básica.
Receita corrente líquida
Receita do governo, descontados os repasses obrigatórios a outros governos.
CBS / IBS
Os novos tributos sobre consumo da Reforma Tributária.
Imposto Seletivo
Novo imposto sobre produtos que fazem mal à saúde ou ao meio ambiente.
Cashback
Devolução de parte do imposto a famílias de baixa renda.

Fontes

  • Constituição Federal: artigos 145 a 162 (tributos e repasses), 198 (mínimos da saúde), 212 e 212-A (mínimos da educação e Fundeb); Emenda Constitucional 132/2023 (Reforma Tributária)
  • Impostômetro / IBPT: percentual de tributos por produto (a página não informa data de atualização)